E procurava-me …

     Há um poema de Barahona que diz [“e foi assim que tudo começou:/ eu tinha saudades de mim e procurava-me…] esse poema faz pensar sobre um processo evidente na linha do viver, que é:  perder e procurar. Um fato vital, na vida também se perde: um emprego, uma relação, uma pessoa querida, perder-se de vista…perder-se de vista pode ser devastador.
     Nesse perder existem tonalidades: O perder-se e saber que perdeu, sentir essa angustia de procurar. O perder-se e não sentir que está perdido, continuar sem pestanejar onde se está. O perder-se em negação total, portanto, sente-se tão encontrado e ancorado, que não consegue acreditar que em algum momento esteve perdido.
     Em algum momento da vida é possível se sentir assim, por mais que se negue e que as condições colaborem, mas há dias vividos como verdadeiros vazios, uma pessoa pairando na sua existência, sem se apropriar dela, experienciando um doloroso processo de esquecer… se esquecendo do próprio corpo, dos gostos, das alegrias e tristezas que genuinamente se faz o ser quem se é, como uma saudade de si.
     Há quanto tempo a pressa, agitação e agonia da civilização se fez esquecer de: parar, respirar, olhar para si e dizer: esse sou eu, eu existo, nasceu em mim uma nova marca, comecei a gostar de uma nova coisa, passei a detestar algo que gostava… esse esquecimento de procurar novas nuances naquilo que já se é, assim nos dias comuns e triviais, que são a maioria. Esse processo de esquecer a existência, e viver na pressa tão corriqueira, que impede o vislumbre de enxergar as mudanças, de lembrar com frescor as versões de si, criar e buscar novas formas de ser.
     Talvez em algum momento de procura, em que se perceba longe de si, seja um choque, como quem diz “onde estive?”, “mas estive fazendo tantas coisas, nesses dias, meses anos…, mas onde eu estive?”
     Por mais perdido que em algum momento seja sentido, ainda existe um ponto em que se pode ancorar, um ponto em que seja possível dizer “eu vou começar aqui, a me procurar e talvez me estranhar e talvez me reconhecer”, onde está esse ponto? Bem, é preciso procurar, é essa tal de procura que nos move, esse processo louco de encontrar e perder, de ter e não ter, saber e não saber, viver é perder e a vida existe porque é preciso procurar até nos vazios, a inteireza das coisas, do possível. Procurar por algo que amarre a vida naquilo que já se. Lembrar diariamente que os espaços vazios existem para que o novo chegue, um espaço que nos relembra, que algo pode acontecer, mesmo em um espaço antigo e conhecido como o nosso corpo, como nossa vida.
     Na caça daquilo que genuinamente nos movimenta. É possível se amarrar muitas vezes em um fiapo de esperança, pode ser pouco, mas pode ser o suficiente enquanto se tece novos e novos fios. Fios de esperança e coragem, que vão se refazer inúmeras e inúmeras vezes, até o fim, nessa vida de procura… procure-se.

maressa marques
psicóloga CRp 13/9675

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